Cantávamos juntos, como havíamos cantado por horas. Voltávamos de uma viagem de jovens da igreja, havia mudado o padre, o nosso antigo e querido padre havia nos deixado a algum tempo, o novo padre gostava mais dos jovens, gostava de nos ver unidos e cantando, era isso que fazíamos todos os finais de semana.
Havia chovido por um tempo, acredito que a estrada já estava seca, havia uma brecha de sol que entrava pela janela, na verdade me incomodava um pouco, por que ela vinha direto a minha nuca e me queimava um pouco. Lembro que as meninas estavam lindas neste dia, Deus do céu estavam lindas! Eu tinha minha preferida, todos sabiam, mas a vergonha não me permitia falar com ela.
Lembro que as viagens para o interior sempre me cansavam, ficávamos horas em estradas esburacadas, para chegar em cidades pouco atraentes. Sempre gostei das pessoas, em especial as interioranas, por isso viajava.
De repente sentimos o ônibus balançar, olhamos para fora e um carro qualquer havia nos cortado, por Deus não nos acidentamos! Olhamos pela janela e vimos vulto sumindo na estrada. Já estávamos na rodovia, as pessoas abusam da velocidade mesmo, lembro que a cor do carro era verde, confesso que achei feio.
Voltamos a cantoria, alguns discutiam e praguejavam, afinal esses loucos da estrada sempre envolvem pessoas inocentes em acidentes. Quem sou eu pra criticar quem pragueja! Ouvimos um estrondo! Olhamos e não vimos nada haviam curvas na estrada, somente vimos o transito parando, haviam alguns poucos carros a frente, por estarmos no ônibus pudemos ver que havia um carro capotado, um carro verde, o motorista parou o ônibus.
Ele pediu para ficarmos dentro, não pude me conter, abri a porta e corri para perto do carro acidentado, estava a poucos metros de nós! Percebi que as pessoas estavam apavoradas ao redor, pois havia chamas em volta do carro.
Gritei para que chamassem o socorro, corri para o lado do carro, mal conseguia enxergar com tanta fumaça, ouvi a voz de uma mulher, e um homem, com toda força abri a porta, tudo estava bagunçado dentro do carro, puxei o rapaz para fora, não foi fácil, enquanto o fazia perguntei se a mulher conseguia se mover, a mulher dizia que não. Coloquei o rapaz o mais longe que pude do carro em chamas.
Olhei em volta, as pessoas estavam em estado de choque, meu sangue estava quente, tudo que eu pensava era em tirar todos de dentro do carro, corri de volta, as malas estavam em toda a parte, consegui pegar a mulher que a pouco havia desmaiado. Me preocupei, sabia que o tempo se esgotava. Todos gritavam para que eu me afastasse, as chamas aumentaram, mas eu tinha que tirar a mulher que desfalecera. Consegui! Enquanto eu a puxava ela acordou, mas não conseguia falar direito, somente me olhava fixamente e tentava balbuciar algo, isso me assustou!
Houve uma grande explosão!
Bem, já faz alguns anos que isso aconteceu, hoje escuto muito mal de meu ouvido esquerdo, tenho também uma grande cicatriz na coxa, alguns estilhaços rasgaram minha perna, foi profundo, mas fiquei bem.
É a primeira viagem que faço ao interior após o acidente, por mais que eu esteja ansioso por cantar na estrada novamente, aquele dia me traumatizou. Ainda me lembro do motorista dizendo para que ficássemos dentro do ônibus, eu deveria ter ficado! Eu nunca esquecerei o rosto do rapaz que salvei, ele urrava me culpando e questionando, por que os tirei do carro e não a seus filhos no banco de trás! Talvez houvesse mesmo uma ou duas vozes clamando por ajuda, mas por Deus, eu não conseguia compreender, nem ver!
Eles nunca me perdoaram!

2 comentários:
Não tem jeito, não há receita para "acertar a mão" num escrito, na verdade, acho que devemos é deixar que a idéia nos leve, ela segue seus próprios e tortuosos caminhos.
Gostei muito da narrativa, Mumu, ela deixa no leitor aquela duvidazinha: "será que aconteceu mesmo? Preciso perguntar ao autor!"
Esse convencimento é um indício de que a história está bem amarrada, de que o enredo apresenta verossimilhança, ou seja, de que houve uma coerência interna na construção das personagens e situações representadas - tanto a identificação do leitor quanto essa dúvida que mencionei vem daí.
De um passado não muito distante, posso recuperar as viagens e retiros dos quais participei junto com colegas de igreja, grupo de jovens e ainda retomo as outras que ainda faço para eventos e outras atividades acadêmicas. Imaginei-me na situação. A personagem mostrou disposição, agiu quando julgou ser preciso, diferenciou-se dos demais por essa disposição. Remorso - não encontro palavra que melhor defina o sentimento que esse desfecho nos passa...
Mas não é assim que seguimos mesmo? Inúmeras são as vezes na vida nas quais percebemos que a coragem que demonstramos foi posta em xeque, insuficiente diante das necessidades, sem contar, ainda, a tristeza da constatação tardia de que o caminho poderia ter sido outro, é inevitável a sensação de que mais sempre poderia ter sido feito...
Muito bom mesmo, algo que me prende a leitura são boas palavras, e isso encontrei aqui! Muito bom mesmo! Parabéns
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