terça-feira, 11 de janeiro de 2011

No Amor Não Existe Meio Termo


Moro nessa rua há anos e nunca a tinha visto. Cabelos revoltos e ondulados, maravilhosamente aproveitados em um corte afro. Somente aquele cabelo chamaria a atenção. Linda! Não andava, trotava. Em poucos minutos estava desorientado. Não podia sair correndo atrás dela, não queria assustá-la. À distância eu a admirava. Eu com passo apertado, suando. Ela trotando, maravilhosa e reluzente.

Seu corpo me encantava. Seu quadril serpenteava a cada passo, a cada trote. Imaginava seu cheiro tão fortemente que tinha certeza que o estava sentindo. Olhava sua vasta cabeleira e sentia cada fio transpassando os vãos dos meus dedos. Prendendo, enroscando levemente. Cheguei a ouvir um gemido de dor, um cacho embaraçou entre meus dedos, eu bronco que sou, puxei, machucando aquele cheiroso couro cabeludo. Estava inebriado.

Morria de medo de perdê-la entre os transeuntes, como naquela musica dos Originais do Samba*. Não estávamos na rua direita, mas não podia deixá-la se perder na multidão. Caminhamos um belo pedaço do centro da cidade. Nesse momento já não tinha mais certeza se estávamos no mesmo caminho ou se eu estava a seguindo. Seria coincidência demais estarmos no mesmo caminho a tantas quadras? De fato eu a seguia. Na verdade eu me entregava ao direito de aproveitar uma oportunidade o que a vida me apresentou. Oportunidade de segui-la. Culpa do destino, cruel e matreiro que a colocou na minha frente.

Minha musa negra chegou ao ponto de ônibus. Parou. Eu me excitei e acelerei o passo. Vi os metros se encurtando mais e mais e o que era excitação virou terror. Sua boca era grande. Grandes dentes brancos contrastando lindamente com sua pele. Seus lábios, seu pescoço, olhos, tudo era divino. Imaginei-me entre aquele seio em puro deleite. Então, cheguei. Parei ao seu lado. Não sabia o que falar. Seu cheiro não parecia em nada com o que eu achei ter sentido, era delicioso. Eu jamais teria em mente esse perfume. De soslaio, com olhos especulativos passei a olhá-la. Não se encara uma deusa. Sempre tive medo dos castigos do Olimpo. Se você encontra Afrodite em um dos jardins de Atenas, você dá bom dia? Diz que acha que vai chover? Que acha que vai fazer sol? Que venta pouco aqui na capital e que no sul venta mais por conta do minuano? Percebi o quão comum eu sou. Meu desespero aumentou vertiginosamente. Ela era a dona da situação.

Restrito a minha pequenês tentava encará-la, subindo aos poucos o meu olhar, pelas suas pernas, ventre, barriga, seios, pescoço e logo me faltava coragem, então olhava para o outro lado, envergonhado. Na terceira tentativa consegui, olhei-a de frente, para minha surpresa ela me encarava. Meu coração parou por um segundo. E logo disparou a milhares de batimentos por segundo. Ela abriu um lindo sorriso, me acalmei. Com uma voz macia me deu bom dia. Disse que achava que iria chover, mas que tinha uma sombrinha em sua bolsa. Que tinha medo dos ventos do sul, preferia a brisa do mar do litoral paulista, mesmo amando a brisa do litoral espírito-santense, sua terra natal.

Saímos algumas vezes. Até esboçamos um namoro, que não deu certo, então terminamos. Não sei responder se somos amigos. A vida é assim, as melhores mulheres preferem os piores tipos de homem. E o inverso se faz muito verdadeiro também. Quando se é comum, se vaga no limbo, um espaço entre os melhores e os piores tipos de homens. Para amar, temos que dar tudo que temos. No amor não existe meio termo.

*Do Lado Direito Da Rua Direita, Música dos Originais do Samba, composta por Luiz Carlos e Chiquinho. Faz parte do álbum “O Samba é a Corda... Os Originais a Caçamba” de 1972.

5 comentários:

Nivea Audrey disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

Nivea Audrey disse...

Até eu queria ver tanta beleza.

Mumu o texto tá maravilhoso. =)

Aline Patrícia disse...

Gostei, gostei muito. A descrição está muito bem construída, não sei se narras uma historia verídica, inspiração vivida, mas que está convincente, está, dá pra sentir sua excitação, pela forma como caracterizas a "musa negra".
Se as melhores mulheres preferem os piores tipos de homem e vice-versa, me parece que existem mesmo os tipo comuns ou, na verdade, parece que estou entre esses que vagam por aí. Talvez em círculos. Dar tudo que se tem é perigoso, é um risco, mas ficar no meio termo é como sentir pela metade...

Em tempo: a referência musical também é maravilhosa. :)

Anônimo disse...

Não sei de qual gosto mais,mas são lindos todos...To viciada!!! hahahaha....Milhões de beijos principe...se cuida VIVI***

L! Palasadany disse...

Bukowski iria propor um brinde, se lesse isso.

Encantador.