"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos." (Nelson Rodrigues)
Peguei aquele livro de capa rota e surrada no fundo da minha estante e reli. É impossível mensurar por quantas vezes o fiz. Quantas vezes chorei e me angustiei esperando boa sorte ou um final feliz àquele personagem que se parece comigo em tudo, até mesmo em nossas diferenças.
As palavras não mudaram, ainda estão no mesmo tempo verbal e na mesma entonação da última vez que li, e da vez anterior a esta também. Mesmo assim eu vejo que a capa esta a cada dia mais surrada, as orelhas das páginas estão dobradas e cada vez mais amassadas. Sua aparência não é mais a mesma. Este livro é tão orgânico quanto qualquer um de nós, está deveras envelhecido. Tão envelhecido quanto eu: careca, 40kg acima do peso, costas detonadas, pernas e braços fracos, mãos trêmulas, coração acelerado, angústia, depressão diagnosticada - e totalmente escondida dos que amo, junto com as bulas e remédios.
Quem sou eu? O cara saudável que leu este livro quando menino e almejou paixões. Que releu como jovem curioso que vivia uma paixão, não idêntica àquela descrita pelo poeta, mas tão intensa quanto, e que agora relê como um velho de espírito - ainda não decrépito, mas que se sente tão amargurado quanto Bento Santiago. O tempo é infalível e corações de sentimento finito sempre limitarão a literatura, esta é uma máxima da vida.
Meu livro e eu, ambos envelhecemos. As minhas gargalhadas puras de jovem despreocupado se foram. Sobraram somente os sorrisos contidos e educados. As declarações de amor não me fazem mais sonhar, me fazem pensar, calcular e refletir. Já não há surpresa alguma nas páginas deste livro, assim como não há grandes surpresas na vida.
Com um gosto de pureza na boca, segurei o livro e o fiquei enamorando. Um turbilhão de pensamentos e lembranças passou pela minha cabeça. Lembrei-me das Glorinhas, Zulmiras, Alices, Julianas, Aparecidas, Zuleides, Catarinas, Julios e Santiagos que passaram na minha vida.
E eu os amei, amei a todos de corpo e alma, assim como vivi cada desamor, tanto os de amante quanto os de amigo, e agora releio para tentar entender as mudanças de algo imutável e infalível, o tempo.
Releio pra ter certeza que ainda estou vivo.
Guardei-o então de volta no fundo da minha estante e no fundo de minha alma, lugar que nunca saiu de fato. É Nelson, já não sou o menino que vê o amor pelo buraco da fechadura, e talvez eu esteja à beira de um profundo poço cheio até a borda do mais puro e límpido amargor, não é mesmo meu amigo?
Mente quem diz que os livros nunca mudam. Estes seres mágicos se transformam com o tempo e com as releituras. Eles tem o poder de serem únicos para cada indivíduo deste mundo, ao mesmo tempo em que são diferentes para cada um deles. Eles são como fontes da juventude para pessoas que insistem nas releituras de menino, mesmo com amargor de homem feito.
"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico." (Nelson Rodrigues)

3 comentários:
Um de seus melhores textos, sem dúvida. Grande sensibilidade! Rico em detalhes e conotações. Além de outras qualidades, cujo conteúdo, posteriormente, quero debater. Apreciei deveras (como vocês mesmo diria... (risos).
Luciana
Obrigado pelo comentário Luciana! =)
Adorei esse texto. Eu acho que reli poucos livros durante a vida. Aliás, não consigo me lembrar de ter relido um inteiro. Talvez eu devesse reler alguns também para procurar isso tudo que você encontrou. =]
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