terça-feira, 13 de agosto de 2013

Anjo Negro (For Heaven's Sake)

Foto: Divulgação
A porta de entrada estava trancada, mas com um pouco de empenho eles conseguiram abrir a tranca e empurrar a cadeira que estava estrategicamente bloqueando a entrada.

Eram dois homens muito bem apessoados de olhar profundo que pé por pé entraram naquele pequeno apartamento alugado, e para a surpresa de ambos, tudo estava muito arrumado e cheiroso.  Então sem pressa os dois invasores começam a procurar por Marcos.
- Este odor está insuportável.
- Realmente, mas tudo é parte do trabalho, você já deveria ter se acostumado com isso.
- Nunca me acostumo com esta situação, ela me incomoda.


Suas narinas estavam tomadas por aquele odor de carne podre que dominava todo o apartamento.

- Parece que o encontramos.
- Este é somente seu corpo.
- Não é esse monte de carne podre que viemos buscar e você sabe muito bem disso.
- É que geralmente eles estão sentados e visíveis, mas dessa vez não vejo nada em lugar algum!
- Deve ser apegado a outras coisas materiais. Continuemos a procurar.

Eles se viram para lados contrários com aquele olhar típico e curioso de detetive de séries de TV. Olham cada metro quadrado do quarto, mas não há nada além de LP's com capas empoeiradas fazendo moldura para aquele corpo morto, deitado de forma desconfortável na cama. A seu lado também havia um livro de Goethe, parecia um cenário milimétricamente planejado.

- Que acha de jogarmos um cobertor em cima dele
- Sabe que não devemos interferir neste plano, por mais nefasto que lhe pareça a cena. Com foco e um pouco de sorte logo partiremos de volta.
- Certo.

Com uma voz carinhosa e acolhedora, um deles chama baixinho: “Marcos, você esta aqui”?

Não há respostas.

Calmamente saem do quarto e sentam no sofá, decididos a aguardar por Marcos. Havia muitos discos e livros de música empilhados na sala também. Um deles, pega um livro, o analisa minuciosamente e sorri dizendo:

- Da uma olhada nesse livro aqui. Que título mais curioso, "Deus foi almoçar"!
- Realmente um nome curioso para um livro.
- De que será que se trata?
- Você como sempre muito curioso e desatento. Porque não lê a orelha do livro?
- E você sempre ríspido demais.
- Ríspido não, direto! Lacônico se preferir, acho mais elegante.
- Ainda prefiro a rispidez como adjetivo às suas ações.
- Leia a orelha, divirta-se um pouco enquanto tento entender este caso.

Um deles percebe que próximo à vitrola, do outro lado da sala há alguém sentado no chão com um LP da Billie Holiday nas mãos. Calmamente um deles se aproxima e carinhosamente coloca a mão em seu ombro. Com uma voz grave e meiga pergunta:

- Marcos?
- Sim, sou eu. O que fazem aqui? - Responde assustado e meio trêmulo.
- Não se assuste.
- Nós viemos falar com você e lhe explicar tudo.

Marcos então se vira para os dois rapazes e se fascina com a beleza de seus rostos.

- Existem coisas acontecendo aqui que não consigo entender. Fora, é claro, a presença indesejada de vocês em minha sala.
- Desculpe-nos, tivemos que entrar a força. A porta estava trancada e com uma cadeira bloqueando a entrada. Por acaso sabia que viríamos?
- Tinha um sentimento estranho no meu coração, por isso resolvi me precaver. Tem ideia porque não consigo colocar este LP da Lady Day pra tocar?  Vejo a vitrola, toco nela, mas me parece impossível manipular a situação. Não consigo controlar as coisas que sempre controlei. Queria muito ouvir minha música favorita: “What a Little Moonlight Can Do". Conhecem esta preciosidade, meus jovens? Poderia falar horas sobre Lady Day e sobre essa música. Faço pesquisas sobre Jazz e Blues, sabiam disso?
- Sabemos sim Marcos.
- Há muitos anos atrás uma jovem negra, também nos pediu para tocar esta mesma música antes de partirmos. Só que infelizmente como você, ela não tinha onde reproduzir um disco surrado que estava guardado em suas coisas.
- Não me façam de bobo, por favor! O que querem comigo?

Os olhos de Marcos estão arregalados, suas mãos tremem e seu coração dispara. Mas há uma áurea boa na sala que o acalma. Sente sua cabeça pesada. Ela vai baixando até que seu queixo encontra com o peito. Ele esboça um princípio de choro, mas as coisas parecem tão irreais que o choro parece ter secado de seus olhos brilhantes. Ele se volta para os belos rapazes e engasgando algumas vezes, pergunta:

- O que esta acontecendo aqui? É exatamente o que estou pensando?
- Sim. - Responde duramente o mais lacônico entre os dois.
- Você não se lembra como foi?
- Não me recordo, mas devo confessar que o desejo de ouvir minha música favorita era grande demais.
 - Sim, nós entendemos.

Um silêncio sepulcral toma conta da sala.

- E agora?
- Agora iremos para um lugar que todos querem saber se existe ou não. Seu ciclo neste plano acabou meu amigo e neste momento não lhe explicaremos nada. Mantenha a paz que tudo se resolverá no tempo certo, ok?
- Se estou morto, por que demoraram tanto para vir me buscar?
- Nunca tardamos.
- Chegamos sempre no tempo certo.
- Mesmo que este tempo não pareça ser o certo para você.
- Não sei se entendo, mas vejo que não tenho outra opção. Posso ver meu corpo?
- Você deve vê-lo. É parte importante do processo que você entenda o que houve.

Marcos se levanta apoiando em um dos rapazes.

- Vocês são anjos?
- Anjos? Essa concepção não é a que temos, porém, para que não lhe causemos mais confusão do que deve ter neste momento, lhe respondo: sim, somos anjos.

O outro anjo então olha no fundo dos seus olhos. Seu olhar mistura carinho e curiosidade.

- Por que sorri Marcos?
- Acabou de ter certeza que está morto, isso de alguma maneira te agrada?
- Irá se despedir de tudo que conhece e talvez não possa voltar.
- Não entendo porque sorri isso não é comum, mesmo aos que tiram a própria vida.
- Sorrio porque vejo que você é belo como a noite. Sorrio porque vejo que você é negro como eu.
- Isso lhe traz satisfação?
- Me traz muita satisfação ser levado deste mundo por um anjo negro. Um belo anjo negro. Mesmo que eu não queira ir embora. Mesmo que no fundo ainda esteja deveras apegado aos meus discos, aos meus amigos, as noitadas, aos meus amores e a tantas possibilidades que achei ser possível transformar em certeza até o fim de minha vida que acabou tão prematuramente. Vejo que a luta não é em vão. Nem a minha e nem de meus irmãos. Ah se outros pudessem vê-lo...
- Eles poderão Marcos, mas não agora.
- Uma pena! Tanta coisa nesta vida seria mais fácil, querido Anjo Negro!

O outro anjo, já dentro do quarto, aguardava a chegada de Marcos ao lado de seu cadáver. Quando se viu deitado, podre e inerte, chorou copiosamente.

Tinha todas as coisas que sempre quis e que pode pagar: O melhor colchão, a melhor TV, a melhor aparelhagem de som, roupas caras, calçados elegantes e tantas outras coisas que o dinheiro lhe permitiu conseguir. Agora tudo isso apodrecia junto a seu corpo pútrido.

- Chore em paz. Não tenha pressa, este momento é só seu.
- Porém, tenha consciência que tudo acaba.
- Vivi tudo que podia viver. Fui intenso. Não choro simplesmente por que tudo acabou. É obvio que quero viver mais. Quero viver muito mais! Viveria eternamente se possível, mas, estou morto. Olhem, estou ali, deitado em uma posição horrenda em minha própria cama e não há o que fazer a respeito deste fato. É o fim. Ei de me acalmar e me acostumar com isso, afinal de contas, a racionalidade em excesso sempre foi parte predominante em minha personalidade de homem vivo.
- A racionalidade é um sentimento evoluído, mesmo que às vezes lhe prive de momentos inesquecíveis.
- A eternidade que tanto almeja é algo que agora você vai entender o real sentido.
- Eternamente morto? Sem sentir o gosto das frutas ou prazer imensurável de um orgasmo? Sem sentir a empolgação de um solo de trompete de Dizzy Gillespie ou o torpor de um solo de piano de Ray Bryant? Pouco interessante para mim. Desculpem-me.
- Não há do que se desculpar.
- Se é tão racional como diz, por que chora então?
- Não consegue ver o que há de errado nesta cena? Não consegue mesmo ver o que há de errado meu lindo Anjo Negro?
- Não.
- Também não vejo nada.
- Estou só. Morri só. Jovem e solitário. 50 anos de vida.  50 anos de amigos, bebedeiras, choros, risos e orgasmos, mas no meu leito de morte, estou totalmente só.
- Muitos morrem dessa forma.
- Não há novidade ou exclusividade nisso.
- Você esta só por suas próprias escolhas.
- Egoísmo, essa palavra lhe deve ser muito familiar.
- Sim, realmente muitos morrem solitários como eu, e quanto ao egoísmo? Ele sempre fez parte do meu vocabulário. Desde os 6 anos de idade sabia que meu fim seria este, morto e sozinho em um apartamento cheio de discos. Porém, sem nenhuma samambaia ou gato, um pouco de dignidade é sempre bem vindo.
- Onde está a dignidade?
- Desde minha infância quando dona Zulmira, perguntava se queria me casar, respondia que meu fim seria exatamente como foi.  Incrível ver que meu destino já estava traçado por forças além de minha compreensão.
- Se sabia desde os 6 anos que seria assim, porque não mudou algo?
- Vejo que mudou tantas outras coisas em sua vida!
- Sempre fui turrão. Nunca aceitei fazer algo que não queria. Se havia algo em minha cabeça, levava isso a ferro e fogo, estando certo ou errado. Afastei todos. Nenhum de meus amigos me procurou por esses dias, mesmo os que mais amei e me dediquei. Todos eles me deixaram aqui apodrecendo em vida.
- Eles tinham suas vidas.
- Você já não fazia parte integral em suas vidas.
- Deveria ter construído sua própria família.
- Mas agora não é hora de arrependimentos.
- Devo me arrepender por tudo? Não seria igualmente egoísta ter filhos, sem querer os ter, somente para compor mais uma família desestruturada? Fazer tudo isso, igual a todas as ovelhas do Senhor somente para não morrer sozinho? Só eu estou errado? Respondam-me!
- Não responderemos essa pergunta.
- A vida alheia não lhe diz respeito.
- Não use escolhas de outros para justificar as suas.
- O que está feito, está feito.
- Pelo que sei você dizia muito isso em vida, não é verdade Marcos?
- Dizia mesmo. Sinceramente ainda não sei quem está certo, eles ou eu. Estou arrependido de não ter tentado o outro caminho, por ter aceitado de forma tão dócil e servil esse destino. De certa forma também agi como uma ovelha do Senhor.
- Pois é...
- E encontrei quem me amasse, encontrei quem queria dividir este teto comigo...
- Mesmo assim preferiu outros caminhos.
- Quantas saudades dos meus crespos... Posso sentir seus, Negro Anjo?
- Marcos, algo para dizer antes de irmos?
- Posso ouvir "What a Little Moonlight Can Do" da Billie Holiday antes de irmos?
- Não!
- Infelizmente não pode.
- Outras coisas preencherão seu coração a partir de agora.

O Anjo Negro, pega o disco que ainda esta nas mãos de Marcos,  se dirige a vitrola e coloca a primeira faixa que esta no “lado b” do disco. Não é  "What a little moonlight can do", mesmo assim, Marcos sorri ao mesmo tempo em que uma lágrima, grande e escura, escorre de seus olhos. Puro agradecimento.

Ao som de "For Heaven's Sake" de Lady Day, os três se despedem do apartamento. Marcos acha tudo curioso e novo. Há muita tristeza em seu coração, mas há uma onda de ternura que emana de seu lindo Anjo Negro, acalmando-o.

O telefone toca e ele escuta a voz de seu bom amigo deixando recado na caixa postal.  Ele irá passar rapidamente em seu apartamento.

Um dos anjos com ternura lhe recorda que tudo acontece no tempo certo. Marcos chora mais um pouco, agora de forma mais contida.

Seu choro vai se emaranhando com a voz ímpar e sofrida de Billie Holiday que diminui lentamente a cada metro alcançado na subida.

Como uma cena de filme o clarão o cega gradualmente, em seus ouvidos ficam somente as ultimas palavras de Lady Day:

"Here is romance for us to try
Here is a chance we can't deny
While heaven's giving us a break
Let's fall in love for heaven's sake
Don't say a word my darling
Don't break the spell like this
Just hold me tight; we're alone in the night
And heaven is here with a kiss".

Tradução:
"Este é o romance para nós tentarmos
Aqui está uma oportunidade que não podemos negar
Enquanto o céu nos da uma pausa
Deixe-se apaixonar, pelo amor de Deus
Não diga nada minha querida
Não quebre o feitiço assim
Apenas me abrace forte, porque estamos sozinhos no meio da noite
E o céu está aqui com um beijo"


Música Incidental: For Heaven's Sake
Composição: D.Meyer/Bretton/S.Edwards
Interprete: Billie Holiday (Lady Day)

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