- Calaram-me Doutor!
Foi o que disse o homem naquela cadeira de psicanalista muito feia e deveras diferente daquelas imponentes que costumamos ver no cinema.
- Mas calaram-te porque não tem mais o que falar, ou até tens o que falar, mas por algum motivo o impedem?
Foi o que respondeu o doutor, sentando em sua escrivaninha posicionada simetricamente ao lado daquela cadeira bordô, muito feia e deveras diferente daquelas imponentes que costumamos ver no cinema.
- Deve ter sido a plurivocidade da inconsciência afetiva que me calou. É o som da voz do outro, poderosa unidade de grandeza, tanto quanto a minha própria, completando assim a consciência faltante de forma magistral.
- É meu caro, não precisa de mim, você sabe que o Amor te calou!
- E minha voz doutor, esta perdida então?
- Talvez um dia essas vozes que escuta se tornem um canto a capela e você reencontre a sua voz, sozinha te esperando.
- Quem procura o canto a capela ou precisa ouvir sua própria voz quando se sente estranhamente aquecido no frio da sombra, ou quando não mais enxerga a sombra como uma região escura e disforme formada pela oclusão de uma fonte luminosa? Uma vida de cinema mudo é tudo que queremos!
- Tudo isso não passa de uma conversa torta, uma fuga da realidade já conhecida por nós dois.
- Da forma que meu peito aperta pensando nisso tudo e vendo o quão feia é sua cadeira, não acredito em fuga da realidade, acredito piamente que só estamos falando sobre Woody Allen, Doutor, e isso é muito sério.

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